China condena líderes cristãos de igreja doméstica à prisão por “fraude”

As autoridades chinesas da província de Shanxi condenaram três líderes da igreja doméstica Linfen Covenant Home Church a penas de prisão sob a acusação de fraude. O anúncio foi feito em 20 de junho de 2025 e reacendeu o debate sobre a perseguição religiosa no país.

Segundo a organização britânica Christian Solidarity Worldwide (CSW), o pastor Li Jie e o ancião Han Xiaodong receberam penas de três anos e oito meses de prisão. Já o ancião Wang Qiang foi condenado a um ano e 11 meses. A CSW denuncia que o processo foi marcado por violações legais e intimidação a familiares e defensores.

Julgamento ocorreu sob forte repressão e portas fechadas

O julgamento aconteceu a portas fechadas, em meio a um forte esquema de segurança no Tribunal Distrital de Linfen Yaodu. Familiares e apoiadores foram impedidos de entrar no local. A esposa, a mãe e os dois filhos do pastor Li Jie chegaram a ser detidos e removidos à força das proximidades do tribunal.

De acordo com a CSW, os advogados de defesa foram pressionados a aceitar restrições severas, como a entrega de celulares e laptops. Em troca, teriam recebido promessas de que as penas não ultrapassariam três anos — o que acabou não se confirmando.

A sentença contra Wang Qiang foi considerada já cumprida, levando em conta o período em que ele permaneceu em “Vigilância Residencial em Local Designado” até setembro de 2024, seguido por libertação sob fiança em março de 2025.

Prisão e acusações questionadas por organizações cristãs

Os três líderes foram presos entre agosto e novembro de 2022, durante atividades religiosas. A acusação formal de fraude só foi apresentada em junho de 2023, e o julgamento teve início apenas em 8 de maio de 2025.

Para a comunidade cristã local e grupos de direitos humanos, a acusação é injusta e reflete a tentativa do governo chinês de criminalizar doações religiosas feitas a igrejas não registradas.

Em nota oficial, a Linfen Covenant Home Church declarou não aceitar a sentença:

“Embora o julgamento tenha sido anunciado, não aceitamos esta sentença injusta. Nossos irmãos não cometeram fraude. As ofertas de nossa igreja não são fraude. Continuamos sendo uma igreja doméstica, com Cristo como único cabeça da igreja, e firmes no princípio da separação entre igreja e estado.”

A declaração, divulgada pela organização China Aid, também afirma:

“Reconhecemos que Li Jie, Han Xiaodong e Wang Qiang estão sofrendo por causa da justiça e estão dispostos a tomar a cruz com o Senhor. Recebemos o resultado do julgamento do Senhor com um coração de gratidão e obediência.”

Repressão sistemática a igrejas domésticas e líderes religiosos

A repressão a igrejas cristãs não registradas tem se intensificado na China. A legislação religiosa exige que comunidades religiosas se submetam a órgãos estatais, como o Movimento Patriótico das Três Autonomias para os protestantes e a Associação Católica Patriótica Chinesa para os católicos. Qualquer prática religiosa fora desses sistemas é considerada ilegal.

Em dezembro de 2024, um grupo de advogados e ativistas divulgou um manifesto criticando abertamente a criminalização de doações feitas a igrejas domésticas. No mesmo mês, líderes da Golden Lampstand Church, também localizada em Linfen, foram condenados a penas entre nove anos e nove anos e dois meses de prisão por acusações semelhantes às feitas contra a Linfen Covenant Home Church. As prisões começaram em agosto de 2021.

Violações de direitos levantam alerta internacional

O presidente da CSW, Mervyn Thomas, denunciou a falta de transparência dos processos judiciais:

“Esses casos ilustram como o complexo sistema legal da China pode ser facilmente manipulado para silenciar vozes religiosas independentes. O uso de julgamentos secretos, intimidação e barreiras ao direito de defesa levanta sérias dúvidas sobre a integridade judicial do país.”

A organização Portas Abertas, que monitora a perseguição religiosa em mais de 60 países, também se pronunciou. Segundo a entidade, a repressão a igrejas domésticas faz parte de uma estratégia sistemática do governo chinês para eliminar práticas cristãs independentes.

A ONG alerta que o Estado vem combinando vigilância digital intensa, monitoramento de redes sociais, e regulamentações restritivas para sufocar qualquer manifestação religiosa que não esteja sob o controle do Partido Comunista Chinês.

Liberdade religiosa limitada por normas vagas e autoritárias

Apesar de a Constituição chinesa garantir oficialmente a liberdade de crença religiosa, essa liberdade é limitada a “atividades religiosas normais”. O problema é que o termo “normal” não é claramente definido em lei, o que permite interpretações arbitrárias por parte das autoridades.

Atualmente, apenas cinco religiões são reconhecidas oficialmente pelo Estado: Budismo, Taoísmo, Islamismo, Protestantismo e Catolicismo — todas sob órgãos estatais de controle.

A linha entre atividade religiosa legítima e ilegal é deliberadamente ambígua, o que permite ao governo agir com ampla margem de repressão contra igrejas domésticas, missionários independentes e líderes espirituais que não se subordinam ao controle oficial.

Novas regras restringem ainda mais missionários estrangeiros

Em 1º de maio de 2025, entraram em vigor novas normas emitidas pelo Partido Comunista Chinês que ampliam as restrições à liberdade religiosa. As medidas proíbem missionários estrangeiros de pregar, angariar fundos ou promover atividades religiosas sem autorização do governo.

As regras também impedem cidadãos estrangeiros de produzir materiais religiosos, ensinar conteúdos bíblicos, recrutar seguidores ou até mesmo oferecer educação teológica, a menos que estejam expressamente autorizados por órgãos estatais.

Segundo a Mission News Network, essas novas regulações tornam ainda mais difícil o trabalho de evangelização na China, consolidando o isolamento das comunidades cristãs que não aceitam se submeter ao sistema estatal.

Conclusão: perseguição religiosa continua sob vigilância global

O caso da Linfen Covenant Home Church é mais um capítulo na longa história de repressão à liberdade religiosa na China. A condenação dos líderes cristãos, o cerceamento da defesa e o julgamento a portas fechadas mostram como o governo tem utilizado ferramentas legais e políticas para silenciar igrejas independentes.

Com a intensificação das regras contra missionários, a censura digital, e o fechamento de igrejas não registradas, cresce a preocupação de organizações internacionais sobre o futuro da fé cristã no país.

Grupos como CSW, Portas Abertas e China Aid continuam monitorando de perto essas violações e pressionando a comunidade internacional a cobrar respeito aos direitos fundamentais, inclusive o direito à liberdade de culto e crença.

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